segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Sou feia



Era uma garota de cerca de 15 anos
Se achava a mais bela das garotas da sua escola
Sua família, que sabia do seu problema,
O escondia dela debaixo de sete capas
Faziam de tudo, tudo mesmo, para protegê-la
Mas um certo dia um jovem, velho conhecido,
Que não aparecia há anos no vilarejo
Apareceu de surpresa e, propositadamente,
Desatou a conversar com a pobre moça
Que descansava no assento da praça 
Que ficava em frente à escola
Num certo momento a iludida gabou-se,
Disse que, por ser muito bonita, não tinha amigas
Por que todas, sem exceção, a invejavam
O jovem, que era de sua confiança, disse-lhe
Que tudo aquilo não passava de uma mentira
Que ela não se via como realmente era
Mas todos faziam questão de esconder isso dela
Que tinha uma deficiência no cérebro
E por isso não via as imagens como os olhos captavam
Disse-lhe também que era a mais feia
A menina, em desespero, correu para casa
Chegou-se a sua mãe e pediu-lhe que negasse
A mãe com os olhos inundados disse:"Filha..."
A jovem prostrou-se e de súbito gritou:
"Eu sou feia!"

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Mudança


Ela sentia-se diferente, outrora queria muitas coisas
Agora nem tantas assim
Sua mudança não era drástica
Nem era imperceptível
Tornou-se mais calma e fria
Sentia-se vazia e pesada
Outrora não sabia o que esperar do futuro
Continuava sem o saber
Mas agora não o esperava com anseio
Tinha medo, estava aflita
Continuava a querer muito algo
E todo o resto já não residia em seu coração
Suas incertezas lhe machucavam
E suas culpas lhe cansavam
Gritava sem emitir som e já não pedia ajuda
Temia os outros, temia seus conflitos
Envergonhava-se da dúvida
Parou pra pensar e nada decidiu



sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Confusão




























Caminhavam dois amigos conversando pela rua quando viram uma mulher andando e falando só
A menina perguntou ao seu amigo: "Ela é doida?"
"Não"-respondeu o amigo-"ela sempre foi como a gente, normal."
"E o que a deixou desse jeito?"-perguntou a menina.
O menino disse: "Ela tentou ser aquilo que as pessoas esperavam dela e começou a ficar confusa por não saber se seria ela, outra pessoa, ou o que queria de verdade."

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Oportunidades



No auge de seus 70 anos estava ela
Cabelos completamente brancos, pele enrugada e pernas fracas, sentada em sua poltrona, quieta
Observava o burburinho dos seus netos na efusividade proveniente da festa a família estava toda reunida
Sua irmã, um pouco mais nova que ela, aproximou-se e desatou a conversar e contando suas novas experiências
Fazia trabalhos humanitários e estava cheia de planos e alegria
Sugeriu-lhe que fizesse parte de algo assim, mas sua resposta, muito comum e evasiva, foi:
"Já passei da idade de fazer essas coisas"
Sua irmã imediatamente retrucou:
"Eu tenho quase a mesma idade que você e estou trabalhando muito bem nisso"
E concluiu:
"Toda sua vida você disse isso, já percebeu quantas oportunidades de mudar sua vida você perdeu?"
A anciã calou-se imediatamente, como se arrependia de tudo que não fez

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Despedida



Mal dormiu naquela noite
Pensou em como viveria depois daquele dia
Levantou-se cedo
Chorou sem parar até soluçar
Lavou o rosto
Se arrumou e se perfumou
Criou coragem
Seguiu para a estação
Onde encontrou o seu grande amor
Aquele rosto que tantas vezes o consolava
Parecia abatido
Como se tivesse perdido igual noite
Abraçaram-se demoradamente
Sentiu que lhe faltou o ar
E a insuportável dor que surgiu no peito
Veio despontar nos olhos
Como cristalinas lágrimas
Aquele abraço pareceu uma eternidade
Não se ouviam sons
Já não se sabiam onde estavam
Se possível fosse se fundiriam
Para evitar a separação
Mas o tempo passou
E aquela tão temida hora chegou
Separaram-se, foram em direções opostas
O que seria daquele amor?

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Crianças



Ela amava crianças, amava a miniaturização humana que a criança representa
Amava a inocência e sinceridade pura dessas doces criaturas
Mas odiava crianças com a mesma intensidade e pelo mesmo motivo
Odiava a capacidade das crianças de reproduzirem tão perfeitamente
Os preconceitos, as sujeiras e até os jargões da tão suja sociedade
Naquele dia chuvoso seguia seu caminho costumeiro
Passava por aquele mesmo centro pediátrico cheio de crianças
Mas naquele dia viu uma médica sair e dizer:" Mãe, venha cá,
Seu filho foi chamado e se recusou a entrar sem você"
Aquela frase foi de certo modo perturbadora para aquela moça
Sentiu ternura, imaginou a criança pedindo pela mãe
Sentiu tristeza, sabe-se lá por que, depois sentiu raiva
Esta era por causa da mudança que seres tão dóceis sofrem
Viram monstros que xingam professores, batem em idosos
Usam drogas, viram bandidos, políticos corruptos
Ela compreendeu que a fonte de sentimentos tão opostos por crianças
Era o seu amor pela humanidade e seu ódio de igual força pela mesma
E assim seguiu caminho acalmando seus sentimentos conflitantes

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Fixação




Ele é daqueles que parecem normais,
Mas ninguém é normal quando se olha de perto
E ele não foge à regra, possui estranhas manias
Dentre elas a mais estranha é a de observar as pessoas
Observar só? Não
É uma espécie de veneração ou investigação
Não se contenta em apenas ver as pessoas
Algumas pessoas lhe chamam à atenção
E ele vai buscá-las onde puder achá-las
É como um jogo para descobrir quem são
Não quer apenas o que todos sabem
Ele quer mais, quer o que pensam, o que sentem
Quase sempre acaba por conhecê-las
Torna-se amigo, conhece seus medos, vontades
Descobre quem são de verdade
Ajuda, estimula, encoraja, encanta e vicia,
Torna-as dependentes dele e depois independentes
E quando se cansa da mesmice, deixa-as,
Por que outras pessoas já chamaram a sua atenção
Vai em busca das outras, não só por que se cansou
Mas por que acha que pode ajudá-las a ver a vida
E continua sempre nesse ciclo, precisa disso
Precisa das pessoas a sua volta
E por falar nisso, lá está ele agora
Vidrado na menina de unhas coloridas
Percebeu que ela mudou a cor do esmalte
E acaba de descobrir onde ela estuda

sábado, 8 de janeiro de 2011

Voltar no tempo



Naquela tarde de férias,
Dia ensolarado,
Areia de gliter,
Águas turvas.
Naquele vestido branco,
De chapéu de palha,
Ela refletia.
Aquela mulher 
Ouvia seu coração
Falar ao som do mar.
Teve muitos amores,
Viveu grandes paixões,
Namorou amigos,
Agora vivia só.
Seu último amor
Pediu-lhe a mão,
Não quis,
A idéia de casar assustou.
Agora, dois anos depois,
Imaginava-se
Naquela praia
Com marido e filhos
Brincando na areia,
Sentiu saudade,
Quis voltar no tempo,
Não podia

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Três


Eram três
Dois deles se amaram com um ódio mortal desde o início
Dois deles se amaram com um amor difícil de compreender
Dois se estranharam à primeira vista
Depois de muitas revelações, trocas, aceitação e perdão
A primeira dupla continua assim e com um amor mais forte
A segunda dupla se aproxima da descrição da primeira e com muito amor
A terceira dupla tornou estranheza aceitação e se amam
São três juntos, que se separam vez por outra
Mas que estão unidos e se amam sempre aos pares
E em conjunto
Quando vai acabar?
Não sei nem se vai acabar

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Como se ama ?



Sempre que vejo você eu quero saber
Pra mim é mistério
E não é ensinado
Às vezes não sei por que é tão difícil aprender
Pra todo mundo eu pergunto
E mesmo assim não descrubo
Acredito que você pode me trazer
Mas eu corro
Tenho medo e fujo
Mas sei que um dia não vou ter o que fazer
Sei que um dia eu paro
E digo: Me mostra como amar você!

domingo, 2 de janeiro de 2011

Desistiu



Ela estava num ônibus cheio,
Algo excepcional numa tarde de domingo
Um garoto estava sentado ao seu lado
Aparentava ter uns 11 anos
Carregava uma mochila que colocou entre os pés,
Estava cansado e sonolento
Cochilou e, num brusco movimento do ônibus
Bateu com a cabeça no recosto da cadeira,
Acordando assustado
Ela, que estava refletindo numa criação,
Olhou para o garoto encarecidamente e
Pensou em oferecer-lhe o colo
Essa expressão de seu extinto materno
Foi imediatamente contrariada por seu senso de sociedade
Lembrou-se de que a mãe do garoto estava por perto
Imaginou o que os outros iriam pensar
E previu o constrangimento pelo qual o garoto poderia passar
Imediatamente desistiu,
Ainda que relutante por causa das oscilações hormonais,
Que lhe eram piores do que doenças,
Desistiu e seguiu viagem.

"Você não me ensinou a amar"


"Definitivamente não sei amar", disse o jovem moço a sua mãe
Ele que vivera dezenas de paixonites platônicas,
Estava convicto de que não havia amado ninguém
E se perguntava se passaria o resto de sua vida daquela forma
Tinha muitos amigos, principalmente amigas
Às quais amava de forma tão altruísta que daria inveja a qualquer cristão
Amava muito, mas o seu amor era fraterno
Queria ajudar os outros a viver melhor e serem felizes
Mas não sabia o que era amor romântico,
O qual tem um pouco de amor fraterno, mas não o é na sua essência
Depois de concluir que não sabia amar,
Disse cabisbaixo e tristonho à sua mãe: "Você não me ensinou a amar!"