Ela subia aquela ladeira fazia anos, todas as segundas, terças... sextas, cantarolando músicas que, segundo ela, eram para acalmar a alma. Mas naquela quarta cinzenta algo diferente acontecia, lá se ia ela, num vestido vermelho de decote revelador e de três saias, murmurando: "Isso não podia ter acontecido!". Aquela que lhe era a pessoa mais querida fora vista ao afagar o colo de outra morena e ela, num ímpeto, saiu sem ser notada e ainda não entendia claramente o que havia presenciado. De repente lhe veio uma idéia que era tanto descabida quanto tentadora, virou-se no meio da ladeira e começou a descê-la. Do pé da ladeira já se escutava o claro som dos tambores e da música envolvente, mas ela, que estava de coração partido, já se remexia por vingança, sentia que a cada gesto ou movimento de seus largos quadris matava o ser que havia lhe infligido um golpe quase mortal. Quando chegou ao largo logo foi notada, um rapaz que parecia não ser dali chegou-se a ela e disse: "Se o sol brilhasse como você eu certamente estaria em uma praia a me refrescar". De início pensou em não dar-lhe ouvidos, mas virou-se bruscamente e disse: "Sabe o que mais...", pegou o braço do moço e começou a dançar. Este dançava muito bem e a conduzia nos mais elaborados passos, quando ela aproximou-se e deu-lhe um beijo molhado, mas sem ternura, ele lhe retribuiu, embora suspreso com sua ação. Nos pensamentos dela só vinha uma imagem, seu ser amado e aquela morena que tantas vezes a ajudava a fechar as contas do caixa na loja de sapatos. Quando parou e olhou em volta notou sua rival chegando só à festa, esperou para ver se alguém mais vinha, ninguém apareceu. Já era fim de festa, madrugada, ela já havia curtido tudo que a festa e o rapaz poderiam oferecer quando meio tonta sentiu o celular vibrar e atendeu, era uma voz trêmula e preocupada que lhe informou do estado da sua pessoa amada, estava doente , havia sido internada na manhã da quarta-feira e precisava de seus cuidados. Naquele momento ela desligou o celular, olhou para o rapaz que a acompanhava e disse: "Sabe o que mais... deve ser um sinal dos céus, acho que vou ficar viúva", saiu assim da festa, guiada por ele em direção ao hospital.

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